segunda-feira, 30 de junho de 2008

NIETZSCHE (15)



Nietzsche
Em
Genealogia da Moral





“ – A rebelião escrava na moral começa quando o próprio ressentimento se torna criador e gera valores: o ressentimento dos seres aos quais é negada a verdadeira reação, a dos atos, e que apenas por uma vingança imaginária obtém reparação.

Enquanto toda moral nobre nasce de um triunfante Sim a si mesma, já de início a moral escrava diz Não a um “fora”, um “outro”, um “não-eu” – e este Não é seu ato criador.

Esta inversão do olhar que estabelece valores – este necessário dirigir-se para fora, em vez de voltar-se para si – é algo próprio do ressentimento: a moral escrava sempre requer, para nascer, um mundo oposto e exterior, para poder agir em absoluto – sua ação é no fundo reação.

O contrário sucede no modo de valoração nobre: ele age e cresce espontaneamente, busca seu oposto apenas para dizer Sim a si mesmo com ainda mais júbilo e gratidão – seu conceito negativo, o “baixo”, “comum”, “ruim”, é apenas uma imagem de contraste, pálida e posterior, em relação ao conceito básico, positivo, inteiramente perpassado de vida e paixão, “nós, os nobres, nós, os bons, os belos, os felizes”.







NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da Moral. Tradução, Notas e Posfácio de Paulo César de Souza. São Paulo: Cia. Das Letras, 1998.

HENRI CARTIER-BRESSON


New York: The Metropolitan Museum of Art


BARRIO CHINO
Barcelona/Espanha

1933 – fotografia – 34.6 x 23.5 cm.
Autor: HENRI CARTIER-BRESSON


Sobre o autor:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Henri_Cartier-Bresson

sábado, 28 de junho de 2008

JEAN GENET



Jean Genet
Em
Diário de um Ladrão






“Dou o nome de violência a uma audácia em repouso apaixonada pelo perigo.
Pode ser percebida num olhar, num andar, num sorriso, e é dentro de nós que ela produz redemoinhos.
Ela nos desmonta.
Essa violência é uma calma que nos agita”.


“A cultura das feridas, pelos mendigos, para eles é também o meio de ter um pouco de dinheiro – para viver –, mas se foram levados a isso por uma fraqueza na miséria, o orgulho que é preciso para sustentar-se fora do desprezo é uma virtude viril: como uma rocha a um rio, o orgulho fura e divide o desprezo, arrebenta-o”.


“Falar do meu trabalho de escritor seria um pleonasmo”.


“Mais que os seus beicinhos, é o sorriso das crianças que me encanta.
Fico a contemplá-lo às vezes por muito tempo, fascinado.
Ele se torna uma coisa destacada do rosto, animado por uma alma particular.
Mais se parece com um animal precioso, de vida dura e todavia frágil, é uma quimera adorável.
Se eu conseguisse recorta-lo, tira-lo do rosto onde brinca, leva-lo no meu bolso, a sua ironia maliciosa me faria realizar prodígios.
Às vezes tento me enfeitar com ele – o que é um desejo de me proteger dele – mas é inútil.
Este sorriso é o verdadeiro ladrão”.


“Deus: o meu tribunal intimo.
A santidade: a união com Deus.
Dar-se-á quando cessar aquele tribunal, isto é, quando o juiz e o julgado estiverem confundidos.
O tribunal separa o bem e o mal. Pronuncia uma sentença, aplica uma pena.
Deixarei de ser o juiz e o réu”.








GENET, Jean. Diário de um Ladrão. Tradução de Jacqueline Laurence e Roberto Lacerda. Rio de Janeiro: Editora Rio Gráfica, 1986.

Sobre o autor:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Jean_Genet

sexta-feira, 27 de junho de 2008

CRUZ E SOUSA (3)



Cruz e Sousa
Em
O Livro Derradeiro





AMOR



Nas largas mutações perpétuas do universo
O amor é sempre o vinho enérgico, irritante...
Um lago de luar nervoso e palpitante...
Um sol dentro de tudo altivamente imerso.

Não há para o amor ridículos preâmbulos,
Nem mesmo as convenções mais superiores;
E vamos pela vida assim como noctâmbulos
à fresca exaltação salúbrica das flores...

E somos uns completos, célebres artistas
Na obra racional do amor – na heroicidade,
Com essa intrepidez dos sábios transformistas.

Cumprimos uma lei que a seiva nos dirige
E amamos com vigor e com vitalidade,
A cor, os tons, a luz que a natureza exige!





Disponível em:
http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000075.pdf

Sobre o autor:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Cruz_e_Sousa

RABISCOS NO BLOCO


quinta-feira, 26 de junho de 2008

SÊNECA (3)



Sêneca
Em
Da Tranqüilidade da Alma





XV

“Mas não adianta nada ter eliminado as causas da tristeza pessoal, pois algumas vezes acontece que um desgosto pelo gênero humano se apossa de nós, quando percebemos quão grande é a quantidade de crimes felizes; quando refletimos até que ponto é rara a retidão e desconhecida a inocência e a sinceridade, desde que ela não convenha; quando notamos os lucros e as dissipações da paixão desregrada, igualmente odiados, e a ambição que vai além de seus próprios limites, a ponto de procurar seu esplendor através da baixeza.

Então mergulha o espírito em noite escura; e destas virtudes assim transformadas, que em ninguém se espera ver, nem são de utilidade alguma para quem as tem, se originam densas trevas,

Assim devemos aplicar-nos a não considerar odiosos, mas ridículos, os vícios dos homens e a imitar Demócrito antes que Heráclito: este não podia aparecer em público sem chorar, o outro sem rir; um não via a não ser a miséria em todas as ações dos homens, o outro só tolices.

Aceitemos, pois, todas as coisas superficialmente e suportemos com bom humor; pois está mais em conformidade com a natureza humana, rir-se da existência do que lamentar-se dela”.





SÊNECA, Lúcio Aneu. Obras. Tradução de G. D. Leoni. São Paulo: Atena Editora, 1955.

Sobre o autor:
http://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%A9neca

quarta-feira, 25 de junho de 2008

LA ROCHEFOUCAUD (8)



La Rochefoucauld
Em Reflexões e Máximas Morais






Máxima 1

“O que tomamos por virtude não passa, comumente, de um conjunto de diversos atos e vários interesses que a sorte ou nossa habilidade sabem arranjar, e não é sempre por coragem ou por pudor que os homens são arrojados e as mulheres castas”.

Máxima 2

“O amor-próprio é o maior de todos os aduladores”.

Máxima 6

“A paixão torna freqüentemente louco o homem mais astuto e quase sempre astutos os mais tolos”.

Máxima 36

“Parece que a natureza que tão sabiamente dispôs os orgãos de nosso corpo para nos fazer felizes, nos deu também o orgulho para nos poupar a dor de conhecer nossas imperfeições”.

Máxima 38

“Prometemos de acordo com as nossas esperanças e cumprimos segundo nossos temores”.

Máxima 48

“A felicidade está no gosto e não nas coisas; e é por ter o que se ama que se é feliz e não por ter o que os outros julgam agradável”.






François de La Rochefoucauld foi um nobre que escreveu apenas dois livros. Um de memórias e outro de máximas. Filho do duque de Poitou, suas máximas foram publicadas pela primeira vez em 1664, anônimas. Retrabalhadas reapareceriam em 1678. La Rochefoucauld faleceu em 1688.

LA ROCHEFOUCAUD, François VI de. Reflexões e Máximas Morais. Tradução de Alcântara Silveira. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1969.

FABERGÉ

Ovos Fabergé
Autor: Peter Carl Fabergé

Sobre o autor:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Peter_Carl_Faberg%C3%A9

terça-feira, 24 de junho de 2008

DAVID HUME



David Hume
Em
Ensaio Sobre o Entendimento Humano







“A FILOSOFIA MORAL, ou ciência da natureza humana, pode ser tratada de duas maneiras diferentes; cada uma delas tem seu mérito peculiar e pode contribuir para o entretenimento, instrução e reforma da humanidade”.


“A primeira considera o homem como nascido principalmente para a ação; como influenciado em suas avaliações pelo gosto e pelo sentimento; perseguindo um objeto e evitando outro, segundo o valor que esses objetos parecem possuir e de acordo com a luz sob a qual eles próprios se apresentam.
Como se admite que a virtude seja o mais valioso dos objetos, os filósofos desta classe pintam-na com as mais agradáveis cores e, valendo-se da poesia e da eloqüência discorrem acerca do assunto de maneira fácil e clara: o mais adequado para agradar a imaginação e cativar as inclinações.
Escolhem na vida cotidiana, as observações e exemplos mais notáveis, colocam os caracteres opostos num contrate adequado e, atraindo-nos para os caminhos da virtude com visões de glória e de felicidade, dirigem nossos passos nestes caminhos com os mais sadios preceitos e os mais ilustres exemplos”.


“Os filósofos da outra classe consideram o homem mais um ser racional que um ser ativo e procuram formar seu entendimento em lugar de melhorar-lhes os costumes.
Consideram a natureza humana objeto de especulação e examinam-na com rigoroso cuidado a fim de encontrar os princípios que regulam nosso entendimento, excitam nossos sentimentos e fazem-nos aprovar ou censurar qualquer objeto particular, ação ou conduta.
Julgam uma desgraça para toda a literatura que a filosofia não tenha estabelecido, além da controvérsia, o fundamento da moral, do raciocínio e da crítica, e que sempre tenha que falar da verdade e da falsidade, do vício e da virtude, da beleza e da fealdade, sem ser capaz de determinar a fonte destas distinções”.







HUME, David. Ensaio Sobre o Entendimento Humano. Tradução de Anoar Aiex. Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/cv000027.pdf

Sobre o autor:
http://pt.wikipedia.org/wiki/David_Hume

segunda-feira, 23 de junho de 2008

MAX NORDAU (2)



Max Nordau
Em
Mentira Política






“O excesso moderno de governo, os documentos, os protocolos e funcionalismo, as proibições e licenças sem fim, não protegem a vida e a propriedade do indivíduo mais do que faria a ausência de todo esse aparelho complicado.
Em troca de todos os sacrifícios de sangue, de dinheiro e de liberdade que o cidadão faz ao Estado, não recebe deste outros auxílios senão a justiça por toda a parte demasiado lenta e dispendiosa, e a instrução, que está longe de ser acessível a todos no mesmo grau”.


“Dizer que a liberdade do indivíduo é enfraquecida em atenção aos direito de outrem, é mau gracejo, essa suposta atenção não impede que os indivíduos sejam oprimidos e priva todos da maior parte da sua liberdade natural, a lei exerce de improviso e constantemente sobre todo o cidadão o constrangimento que, sem ela, algumas naturezas impetuosas exerceriam somente talvez, em casos excepcionais, sobre alguns”.


“A qualidade necessária para tornar-se chefe de partido é à vontade.
É dom que nada tem em comum com a inteligência, a fantasia, a previdência, a grandeza da alma.
A vontade poderosa pode caminhar de par com o espírito acanhado, a baixeza de sentimentos, a deslealdade, o egoísmo e a malvadeza; é a força orgânica que pode pertencer a um facínora, como o homem mais insignificante ou mais corrupto pode ter estatura alta e grande força muscular.
Demais sejam quais forem suas qualidades, o homem que possui vontade mais poderosa será necessariamente o primeiro em uma assembléia, o chefe e o senhor”.








NORDAU, Max. As Mentiras Convencionais da Nossa Civilização. Tradução e revisão: Joaquim de Araújo. 3a.Ed. São Paulo: Edições e Publicações Brasil Editora, 1960.

Sobre o autor:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Max_Nordau