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Nosso segundo sábio, Gastón Bachelard, aparece primeiro com dois trechos de “A Poética do Espaço”, onde brinca com a realidade e a imaginação:
“Para um estudo fenomenológico dos valores da intimidade do espaço interior, a casa é, evidentemente, um ser privilegiado, sob a condição, bem entendido, de tomarmos, ao mesmo tempo, a sua unidade e a sua complexidade, tentando integrar todos os seus valores particulares num valor fundamental.
A casa nos fornecerá simultaneamente imagens dispersas e um corpo de imagens. Num e noutro caso, provaremos que a imaginação aumenta os valores da realidade”.
“Pois a casa é nosso canto do mundo. Ela é, como se diz freqüentemente, nosso primeiro universo. É um verdadeiro cosmos. Um cosmos em toda a acepção do termo.
Até a mais modesta habitação, vista intimamente, é bela.
Os escritores de “aposentos simples” evocam com freqüência esse elemento da poética do espaço. Mas essa evocação é sucinta demais. Tendo pouco a descrever no aposento modesto, tais escritores quase não se detêm nele. Caracterizam o aposento simples em sua atualidade, sem viver na verdade a sua primitividade, uma primitividade que pertence a todos, ricos e pobres, se aceitarem sonhar”.
BACHELARD, Gaston. Bachelard: O Novo Espírito Científico/ A Poética do Espaço. Tradução: Remberto Francisco Kuhnen, Antônio Costa Leal e Lídia do Valle Santos Leal. São Paulo: Nova Cultural, 1988. (Os pensadores).
E, ainda, nesta reflexão de A Psicanálise do Fogo:
“O fogo e o calor fornecem meios de explicação nos mais diversos campos, pois facultam-nos o ensejo de recordar coisas imorredouras, experiências pessoais simples e decisivas.
O fogo é, portanto, um fenômeno privilegiado que pode explicar tudo.
Se aquilo que se modifica lentamente se explica através da vida, o que se modifica depressa é explicado pelo fogo.
O fogo é ultravivo.
O fogo é íntimo e universal.
Vive no nosso coração.
Vive no céu.
Sobe das profundezas da substância e oferece-se como o amor.
Volta a tornar-se matéria e oculta-se, latente, contido, como o ódio e a vingança.
Entre todos os fenômenos, é ele o único que pode aceitar as duas valorações opostas: o bem e o mal.
Brilha no Paraíso.
Arde no Inferno.
É doçura e tortura.
É cozinha e apocalipse.
É prazer para a criança que se senta com juízo à lareira; no entanto, castiga qualquer desobediência de quem pretende brincar demasiado perto das chamas.
É bem-estar e respeito.
É um deus tutelar e terrível, bom e mau.
Pode contradizer-se: é portanto um dos princípios de explicação universal”.
BACHELARD, Gaston. A Psicanálise do Fogo. Tradução de Maria Isabel Braga. Lisboa: Litoral Edições, 1989.
Informações biográficas nas postagens originais.
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