terça-feira, 30 de setembro de 2008

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE (6)



SOCIEDADE
(Carlos Drummond de Andrade)






O homem disse para o amigo:
- Breve irei a tua casa
e levarei minha mulher.

O amigo enfeitou a casa
e quando o homem chegou com a mulher,
soltou uma dúzia de foguetes.

O homem comeu e bebeu.
A mulher bebeu e cantou.
Os dois dançaram.
O amigo estava muito satisfeito.

Quando foi a hora de sair,
o amigo disse para o homem:
- Breve irei a tua casa.
E apertou a mão dos dois.

No caminho o homem resmunga:
- Ora essa, era o que faltava.
E a mulher ajunta: - Que idiota.

- A casa é um ninho de pulgas.
- Reparaste o bife queimado?
O piano ruim e a comida pouca.

E todas as quintas-feiras
eles voltam à casa do amigo
que ainda não pode retribuir a visita.






ANDRADE, Carlos Drummond de. Sentimento do mundo. Rio de Janeiro: Record, 1993.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

WILHELM REICH (2)



Wilhelm Reich
Em
A Função do Orgasmo






”A saúde psíquica depende da potência orgástica, i.e., do ponto até o qual o indivíduo pode entregar-se, e pode experimentar o clímax de excitação no ato sexual natural”.

“As enfermidades psíquicas são o resultado de uma perturbação da capacidade natural de amar”.

“A formação das massas no sentido de serem cegamente obedientes à autoridade se deve não ao amor parental mas à autoridade da família. A supressão da sexualidade nas crianças pequenas e nos adolescentes é a principal maneira de se conseguir essa obediência”.

“A unidade e congruência de cultura e natureza, trabalho e amor, moralidade e sexualidade – desejada desde tempos imemoriais – continuará a ser um sonho enquanto o homem continuar a condenar a exigência biológica da satisfação sexual natural (orgástica)”.

“Deve atribuir-se à universal alienação da vida que os fatos, e as suas relações por mim descobertos tenham sido negligenciados, ou persistentemente ocultados”.






REICH, Wilhelm. A Função do Orgasmo. Tradução: Maria da Glória Novak. 7ª. Ed. São Paulo: Brasiliense, 1982.

Sobre o autor:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Wilhelm_Reich

ELVIRA BACH


Galerie & Edition Bode
GmbHNürnberg-Deutschland


LIEGENDE DIVA
2005 – acrílica sobre tela – 30 x 40 cm
Autora: ELVIRA BACH

sábado, 27 de setembro de 2008

MARTIN HEIDEGGER (2)



HEIDEGGER
Em
Que é metafísica?







“Acontece no ser-aí do homem semelhante disposição de humor na qual ele seja levado à presença do próprio nada?



Este acontecer é possível e também real – ainda que bastante raro – apenas por instantes, na disposição de humor fundamental da angústia.

Por esta angústia não entendemos a assaz freqüente ansiedade que, em última análise, pertence aos fenômenos do temor que com tanta facilidade se mostram.

A angústia é radicalmente diferente do temor.

Nós nos atemorizamos sempre diante deste ou daquele ente determinado que, sob um ou outro aspecto determinado, nos ameaça.

O temor de... sempre teme por algo determinado.

Pelo fato de o temor ter como propriedade a limitação de seu “de” (Wovor) e de seu “por” (Worum), o temeroso e o medroso são retidos por aquilo que nos amedronta.

Ao esforçar-se por se libertar disto – de algo determinado –, toma-se, quem sente o temor, inseguro com relação às outras coisas, isto é, perde literalmente a cabeça.




A angústia não deixa mais surgir tal confusão.

Muito antes, perpassa-a uma estranha tranqüilidade.

Sem dúvida, a angústia é sempre angústia diante de..., mas não angústia diante disto ou aquilo.

O caráter de indeterminação daquilo diante de e por que nos angustiamos, contudo, não é apenas uma simples falta de determinação, mas a essencial impossibilidade de determinação.

Um exemplo conhecido nos pode revelar esta impossibilidade.




Na angústia – dizemos nós – “a gente sente-se estranho”.

O que suscita tal estranheza e quem é por ela afetado?

Não podemos dizer diante de que a gente se sente estranho.

A gente se sente totalmente assim.

Todas as coisas e nós mesmos afundamo-nos numa indiferença.

Isto, entretanto, não no sentido de um simples desaparecer, mas em se afastando elas se voltam para nós.

Este afastar-se do ente em sua totalidade, que nos assedia na angústia, nos oprime.

Não resta nenhum apoio.

Só resta e nos sobrevém – na fuga do ente – este “nenhum”.

A angústia manifesta o nada”.








HEIDEGGER, Martin. Que é metafísica? Tradução de Ernildo Stein.
Disponível em:

http://www.livrosparatodos.net/livros-downloads/que-e-metafisica.html


Sobre o autor:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Martin_Heidegger

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

ANTÔNIO VIEIRA



Antônio Vieira
Em
Sermão do Mandato






“Quatro ignorâncias podem concorrer com um amante, que diminuam muito a perfeição e merecimento de seu amor.

Ou porque não se conhecesse a si; ou porque não conhecesse a quem amava; ou porque não conhecesse o amor; ou porque não conhecesse o fim onde há de parar, amando.

Se não conhecesse a si, talvez empregaria o seu pensamento onde o não havia de por, se se conhecera.

Se não conhecesse a quem amava, talvez quereria com grandes finezas a quem havia de aborrecer, se não o ignorava.

Se não conhecesse o amor, talvez se empenharia cegamente no que não havia de empreender, se o soubera.

Se não conhecesse o fim em que havia de parar, amando, talvez chegaria a padecer os danos a que não havia de chegar, se o previra”.





VIEIRA, Antônio. Sermões. (organizado por) Eugênio Gomes. 9ª Ed. Rio de Janeiro: Agir, 1985.

Sobre o autor:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B3nio_Vieira

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

RAUL SEIXAS (2)



METRÔ LINHA 743
(Raul Seixas)
(canção)






Ele ia andando pela rua meio apressado
Ele sabia que estava sendo vigiado
Cheguei para ele e disse:
– Ei amigo! Você pode me ceder um cigarro?
Ele disse: – Eu dou, mas vá fumar lá do outro lado
Dois homens fumando juntos pode ser muito arriscado!
Disse: – O prato mais caro do melhor banquete
É o que se come cabeça de gente que pensa
E os canibais de cabeça descobrem aqueles que pensam
Porque quem pensa, pensa melhor parado!
Desculpe minha pressa, fingindo atrasado
Trabalho em cartório, mas sou escritor,
Perdi minha pena nem sei qual foi o mês
Metrô linha 743



O homem apressado me deixou e saiu voando
Aí eu me encostei num poste e fiquei fumando
Três outros chegaram com pistola na mão,
Um gritou: – Mão na cabeça malandro, se não quiser levar chumbo quente nos cornos!
Eu disse: – Claro, pois não, mas o que é que eu fiz?
Se é documento eu tenho aqui...
Outro disse: – Não interessa, pouco importa, fique aí!
Eu quero é saber o que você estava pensando
Eu avalio o preço me baseando no nível mental
Que você anda por aí usando...
E aí eu lhe digo o preço que sua cabeça agora está custando
Minha cabeça caída, solta no chão
Eu vi meu corpo sem ela pela primeira e última vez
Metrô linha 743



Jogaram minha cabeça oca no lixo da cozinha
E eu era agora um cérebro, um cérebro vivo à vinagrete
Meu cérebro logo pensou: que seja, mas nunca fui tiéte
Fui posto à mesa com mais dois
E eram três pratos raros, e foi o mestre quem pôs
Senti horror ao ser comido com desejo por um senhor alinhado
Meu último pedaço, antes de ser engolido ainda pensou grilado:
Quem será este desgraçado dono desta zorra toda?
Já tá tudo armado, o jogo dos caçadores canibais
Mas o negócio é que tá muito bandeira
Tá bandeira demais meu Deus!
Cuidado brother, cuidado sábio senhor
É um conselho sério pra vocês
Eu morri e nem sei mesmo qual foi aquele mês
Ah! Metrô linha 743





Sobre o autor:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Raul_Seixas

RABISCOS NO BLOCO


quarta-feira, 24 de setembro de 2008

LANGSTON HUGHES



ASPIRAÇÃO
(Langston Hughes)






Estirar os braços
Ao sol nalgum lugar
E até que morra o dia
Dançar, pular, cantar!
Depois sob uma árvore,
Quando já entardeceu,
Enquanto a noite vem
– Negra como eu –
Descansar... É o que quero!


Estirar os braços
Ao sol nalgum lugar,
Cantar, pular, dançar
Até que a tarde caia!
E dormir sob uma árvore
– Este o desejo meu –
Quando a noite baixar
Negra como eu.





(Tradução de Manuel Bandeira)




LISBOA, Henriqueta. Antologia Poética para a Infância e a Juventude. Rio de Janeiro: Tecnoprint, 1969.

Sobre o autor:
http://en.wikipedia.org/wiki/Langston_Hughes

terça-feira, 23 de setembro de 2008

JEAN GENET (2)



Jean Genet
Em
Diário de um Ladrão





“Não conheço nenhum malandro que não seja criança.
Que espírito “sério”, ao passar diante de uma joalheria, um banco, inventaria, minuciosamente e com gravidade, os detalhes de um ataque ou de um assalto?
A idéia de uma associação de companheiros fundada – não sobre o interesse dos associados – num acordo cúmplice próximo da amizade, para se fazer ajudar, onde poderia ele encontrá-la senão numa espécie de sonho, de jogo gratuito, que chamam de romanesco?”




“Conheço a calma extraordinária no momento de realizar o roubo e o temor que a acompanha.
Na vitrine de um joalheiro: enquanto não estou dentro, não acredito que vou roubar.
Mal entro, tenho a certeza de que sairei com uma jóia: um anel ou as algemas.
Essa certeza se traduz por um longo arrepio que me deixa imóvel, mas vai da nuca aos calcanhares.
Ele se exaure nos meus olhos cujos contornos seca.
As minhas células, me parece, transmitem umas às outras uma onda, um movimento ondulatório que é a própria substância da calma.
Penso-me do calcanhar à nuca.
Acompanho a onda.
Ela nasceu do medo.
Sem ela, não existiria essa calma em que o meu corpo mergulha – que o meu corpo atinge”.








GENET, Jean. Diário de um Ladrão. Tradução de Jacqueline Laurence e Roberto Lacerda. Rio de Janeiro: Editora Rio Gráfica, 1986.

Sobre o autor:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Jean_Genet

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

PIERRE LÉVY



Pierre Lévy
Em
Por um pensamento-imagem







“Costuma-se dizer que vivemos em uma civilização da imagem ou do audiovisual.
Enquanto o tempo destinado à leitura tende a diminuir entre as novas gerações, verifica-se que o tempo dedicado a assistir à televisão e ouvir música gravada não para de crescer”.




“Como reconciliar com os prazeres da inteligência gerações orientadas para as imagens animadas e telas interativas?

Em vez de se agastar em defender o impresso clássico, por que não transformar a própria imagem animada em tecnologia intelectual?, por que não inventar uma escrita em fase com a nova ecologia cognitiva da era audiovisual?”




"Atenção! Não se trata de recorrer à imagem para ilustrar ou enfeitar o texto clássico, mas de realmente inaugurar uma nova escrita: um instrumento de conhecimento e de pensamento que seja também e intrinsecamente imagem animada”.




“Fazer da imagem animada uma tecnologia intelectual plena é contribuir para inventar uma cultura informático-midiática crítica e imaginativa, é esboçar outro caminho que não o da sociedade do espetáculo, voltada ao cintilar sem memória da televisão e a gestão “racional” pelos sistemas de informação”.



“Utopia? Sim. Reivindicamos a utopia em detrimento da preguiça e do “realismo” conformista”.







LÉVY, Pierre. A ideografia dinâmica. Tradução: Marcos Marcionilo e Saulo Krieger. 2ª Ed. São Paulo: Edições Loyola, 2004.

Sobre o autor:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Pierre_L%C3%A9vy