sábado, 10 de janeiro de 2009
MATIAS AIRES (4)
Matias Aires
Em
Reflexões Sobre a Vaidade dos Homens.
102.
“Não somos firmes no amor, porque em nada podemos ser constantes: continuamente nos vai mudando o tempo; uma hora demais é mais em nós uma mudança.
A cada passo que damos no discurso da vida, imos nascendo de novo, porque a cada passo imos deixando o que fomos, e começamos a ser outros; cada dia nascemos, porque em cada dia mudamos, e quanto mais nascemos desta sorte, tanto mais nos fica perto o fim, que nos espera.
A inconstância que é um ato da alma, ou da vontade, não se faz sem movimento; a natureza não se conserva, e dura, senão porque se muda, e move.
O mundo teve o seu princípio no primeiro impulso, que lhe deu o supremo Artífice; a mesma luz, que é uma bela imagem da Onipotência, toda se compõe de uma matéria trêmula, inconstante e vária.
Tudo vive enfim do movimento; a falta de mudança é o mesmo que falta de vida, e de existência, assim a firmeza é como um atributo essencial da morte”.
AIRES, Matias. Reflexões Sobre a Vaidade dos Homens. Introdução de Alceu Amoroso Lima. Ilustrações de Santa Rosa. São Paulo: Livraria Martins Editora S. A., 1955.
Texto Disponível em:
http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/me002989.pdf
Sobre o autor:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Matias_Aires
sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
JOHN DEWEY
John Dewey
Em
Reconstrução Em Filosofia.
“Todos sabem que os homens, que iniciaram a revolução no domínio das ciências naturais, julgavam o espaço e o tempo não só independentes um do outro, como também das coisas que existiam e dos acontecimentos que decorriam em seu meio.
Uma vez que a aceitação de entidades fixas fundamentais – das quais são exemplos o espaço, o tempo e os átomos imutáveis – dominava a ciência “natural", não admira que tal pressuposto constituísse, em forma mais generalizada, os alicerces sobre os quais a filosofia viria erguer sua estrutura.
As doutrinas filosóficas, que discordavam virtualmente acerca de tudo, eram no entanto concordes nesse ponto, a saber, em admitir que à filosofia, enquanto tal, competia à busca do que é imutável e último – daquilo que é – sem se preocupar com o temporal ou com o espacial.
Foi neste estado de coisas, vigente na esfera da ciência natural, bem como nos padrões e princípios éticos, que se introduziu recentemente a descoberta de que a ciência natural, mercê de seu próprio desenvolvimento, é forçada a abandonar a hipótese da fixidez e a admitir que o que para ela é realmente “universal” é o processo; contudo, quer na filosofia, quer na opinião popular, até nossos dias, não se atribuiu a este fato da ciência moderna senão um caráter técnico, em vez de, nele, se ver aquilo que realmente é: a descoberta mais revolucionária até agora”.
DEWEY, John. Reconstrução Em Filosofia. Tradução de Antônio Pinto de Carvalho, revista por Anísio Teixeira. 2ª. Ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1959.
Sobre o autor:
http://pt.wikipedia.org/wiki/John_Dewey
quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
EPICTETO (9)
Epicteto
Em
Máximas.
1.
“A escravidão do corpo é obra da sorte.
A da alma é obra do vício.
Quem desfruta da liberdade do corpo é escravo, se tem agrilhoada a alma; quem tem a alma livre desfruta de inteira liberdade, embora carregado de pesados grilhões.
A natureza, com a morte, põe cobro à escravidão do corpo, mas a da alma só cessa com a virtude”.
3.
“Envergonhar-te-ia, sem dúvida, a vil entrega do teu corpo ao primeiro transeunte e, no entanto, sem corar, abandonas a alma ao primeiro que se te depara”.
12.
“Quando pretendemos embarcar, desejamos um bom vento para seguirmos o nosso caminho; esperando o dia da partida, vamos com freqüência verificar que vento sopra, e, se nos é contrário, exclamamos: sempre vento norte! Quando soprará o vento do poente?
Meu amigo, soprará quando lhe aprouver, ou melhor, quando aprouver a Quem manda em todas as coisas.
Serás, por acaso, dispensador dos ventos, como Éolo?
Façamos sempre o que de nós depende, e valhamo-nos do resto, tal qual se nos apresenta e sucede”.
Epicteto: filósofo da escola dos estóicos, vivendo entre a Grécia e Roma nos meados do primeiro século da era cristã. Foi escravo, em Roma, na época de Nero.
EPICTETO. Máximas. Tradução de Alberto Denis. São Paulo: Ed. E Pub. Brasil Editora, 1960.
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
DESCARTES
René Descartes
Em
Dos princípios do conhecimento humano.
“Artigo 7
O RESULTADO POSITIVO DA DÚVIDA: O LÓGICO, A MINHA EXISTÊNCIA.
7 – Que não poderemos duvidar sem existir, e que isso constitui o primeiro conhecimento exato que é possível adquirir.
Enquanto assim rejeitamos tudo o de que possamos duvidar, e que fingimos até ser falso, imaginamos, com facilidade, que não existe Deus, nem céu, nem terra, e que não possuímos corpo.
Não poderíamos, contudo, supor do mesmo modo que não existimos, ao tempo em que duvidamos da verdade de todas estas coisas: pois, efetivamente, temos tanta repugnância em imaginar que o que pensa não existe realmente ao mesmo tempo que pensa que, não obstante as mais estapafúrdias suposições, não poderíamos obstar-nos de crer que esta inferência EU PENSO, LOGO EXISTO, não seja exata e, conseqüentemente, a primeira e a mais verdadeira que se apresenta àquele que encaminha os seus pensamentos por ordem”.
DESCARTES, René. Princípios da Filosofia. Tradução de Torriere Guimarães. São Paulo: Hemus – Livraria Editora Ltda., 1968.
Sobre o autor:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ren%C3%A9_Descartes
terça-feira, 6 de janeiro de 2009
ANTERO DE QUENTAL (3)
À VIRGEM SANTÍSSIMA
(Cheia de graça, Mãe de Misericórdia)
(Antero de Quental)
N’UM sonho todo feito de incerteza,
De noturna e indizível ansiedade,
É que vi teu olhar de piedade
E (mais que piedade) de tristeza...
Não eras o vulgar brilho da beleza,
Nem o ardor banal da mocidade,
Era outra luz, era outra suavidade
Que até nem sei se as há na natureza...
Um místico sofrer... uma ventura
Feita só do perdão, só da ternura
E da paz da nossa hora derradeira...
Ó visão, visão triste e piedosa!
Fita-me assim calada, assim chorosa...
E deixa-me sonhar a vida inteira!
QUENTAL, Antero de. Antologia. Organização de José Lino Grunewald. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991.
Disponível em:
http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000027.pdf
Sobre o autor:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Antero_de_Quental
HENRI ROUSSEAU

Musee de l'Orangerie, Paris.
La Noce
1905 – óleo sobre tela – 163 x 114 cm.
Autor: Henri-Julien-Félix Rousseau
Sobre o autor:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Henri_Rousseau
La Noce
1905 – óleo sobre tela – 163 x 114 cm.
Autor: Henri-Julien-Félix Rousseau
Sobre o autor:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Henri_Rousseau
segunda-feira, 5 de janeiro de 2009
BAUDELAIRE (5)
A Sopa e as Nuvens
(Charles Baudelaire)
A LOUCA da minha bem-amada me dava de jantar, e pela janela aberta da sala de refeições eu contemplava as movediças arquiteturas que Deus faz com as nuvens, as maravilhosas construções do impalpável.
E dizia comigo, através da minha contemplação:
– “Todas estas fantasmagorias são quase tão belas quanto os olhos de minha amada, a pequena louca monstruosa de olhos verdes”.
De súbito senti um violento murro nas costas e ouvi uma voz rouca e encantadora, uma voz histérica, e como enrouquecida pela aguardente, a voz da minha querida bem-amada, que me dizia:
– Trate de tomar a sua sopa, seu maluco, mercador de nuvens!
BAUDELAIRE, Charles. Pequenos poemas em prosa. 4ª. Ed. Tradução de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1980.
Sobre o autor:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Charles_Baudelaire
sábado, 3 de janeiro de 2009
WALTER BENJAMIN
Walter Benjamin
Em
O Narrador.
“Nada facilita mais a memorização das narrativas que aquela sóbria concisão que as salva da análise psicológica.
Quanto maior a naturalidade com que o narrador renuncia às sutilezas psicológicas, mais facilmente a história se gravará na memória do ouvinte, mais completamente ela se assimilará à sua própria experiência e mais irresistivelmente ele cederá à inclinação de recontá-la um dia.
Esse processo de assimilação se dá em camadas muito profundas e exige um estado de distensão que se torna cada vez mais raro.
Se o sono é o ponto mais alto da distensão física, o tédio é o ponto mais alto da distensão psíquica.
O tédio é o pássaro de sonho que choca os ovos da experiência”.
“Contar histórias sempre foi a arte de contá-las de novo, e ela se perde quando as histórias não são mais conservadas.
Ela se perde porque ninguém mais fia ou tece enquanto ouve a história”.
“Quanto mais o ouvinte se esquece de si mesmo, mais profundamente se grava nele o que é ouvido”.
“Assim se teceu a rede em que está guardado o dom narrativo”.
BENJAMIN, Walter. Magia e Técnica, Arte e Política. Obras Escolhidas Volume 1. Tradução: Sergio Paulo Rouanet. Prefácio: Jeanne Marie Gagnebin. São Paulo: Brasiliense, 1994.
Sobre o autor:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Walter_Benjamin
sexta-feira, 2 de janeiro de 2009
ALBERT CAMUS
Albert Camus
Em
O Estrangeiro.
“Pensei que bastava dar meia-volta e tudo estaria acabado.
Mas, atrás de mim, comprimia-se toda uma praia vibrante de sol.
Dei alguns passos em direção à nascente.
O árabe não se mexeu.
Apesar disso, estava ainda muito longe.
Parecia sorrir, talvez por causa das sombras sobre o seu rosto.
Esperei.
A ardência do sol ganhava-me as faces e senti gotas de suor se acumularem nas minhas sobrancelhas.
Era o mesmo sol do dia em que enterrara mamãe, e, como então, doía-me sobretudo a testa, e todas as suas veias batiam juntas debaixo da pele.
Por causa desta queimadura, que já não conseguia suportar, fiz um movimento para frente.
Sabia que era estupidez, que não me livraria do sol se desse um passo.
Mas dei um passo, um só passo à frente.
E, desta vez, sem se levantar, o árabe tirou a faca, que ele me exibiu ao sol.
A luz brilhou no aço e era como se uma longa lâmina fulgurante me atingisse na testa.
No mesmo momento, o suor acumulado nas sobrancelhas correu de repente pelas pálpebras, recobrindo-as com um véu morno e espesso.
Meus olhos ficaram cegos, por trás desta cortina de lágrimas e de sal.
Sentia apenas os címbalos do sol na testa e, de modo difuso, a lâmina brilhante da faca sempre diante de mim.
Esta espada incandescente corroia as pestanas e penetrava meus olhos doloridos.
Foi, então, que tudo vacilou.
O mar trouxe um sopro espesso e ardente.
Pareceu-me que o céu se abria em toda a sua extensão, deixando chover fogo.
Todo o meu ser se retesou e crispei a mão sobre o revólver.
O gatilho cedeu, toquei o ventre polido da coronha e foi aí, no barulho, ao mesmo tempo seco e ensurdecedor, que tudo começou.
Sacudi o suor e o sol.
Compreendi que destruira o equilíbrio do dia, o silêncio excepcional de uma praia onde havia sido feliz.
Então, atirei quatro vezes ainda num corpo inerte, em que as balas se enterravam sem que se desse por isso.
E era como se desse quatro batidas secas na porta da desgraça”.
CAMUS, Albert. O Estrangeiro. Tradução: Valerie Rumjanek. Rio de Janeiro: Record, 1995.
Sobre o autor:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Albert_Camus
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